Questiono-me mil vezes ao dia se existo. Serei real? Ninguém me vê.  Sou um pedaço de vento no meio da tempestade. Sou um fantasma vivo. Se estivesse morta lembrar-se-iam mais vezes de mim, suponho. As pessoas só relembram coisas quando tarde demais. Espero eternamente por alguma palavra, não sei qual, de um alguém que nunca chegará. Espero, enquanto fumo, rezando para que cigarro após cigarro, possa morrer mais rápido. Qual é o destino das pessoas invisíveis? Não conheço nenhuma a não ser eu. Só pode significar uma coisa: esquecimento. Somos incómodos. Pedaços da realidade feia do mundo. Pessoas fragmentadas. Almas soltas de um corpo. Que fazer quando não tenho vontade de fazer nada? Ou força. Ou energia. Ou vida… Estou pré-morta.
A esperança não é a última coisa a morrer. Não sei o que será… não sei quanto mais tempo tenho de continuar assim. Mas é insuportável. A espera. Não tenho soluções porque não tenho futuro. Nem presente. Só um passado que teima em não me deixar.

Tiraram-me tudo. Nada tenho a não ser estes ossos, esta pele, este sangue. Sou como um projecto alienígena que ninguém quer estudar. Não estou bem aqui, nem em Lisboa, nem em merda nenhuma. Às vezes, tenho vontade que peguem em mim, me indiquem o caminho e digam “faz isto, depois aquilo e a seguir isto”. Mas quando o tentam fazer não o suporto. Que se foda tudo e todos. Que se foda esta vila, este país, estas pessoas. Que se foda a humanidade inteira que já está tão fodida.
Será que a felicidade não provém da morte cerebral?

A maior parte do tempo é como se nem sequer existisse. Sou um pedaço de vento que se soltou da tempestade. Divago por aí, sem bóia de salvação, e o mar de lágrimas cada vez é mais denso; e eu não sei quanto mais tempo consigo manter-me à tona. Não há salvadores aqui. Nem em porra de lado nenhum. Estou por minha conta. Estamos todos. Mas, saberemos tomar conta de nós?

Quis sair sem saber o caminho. Não é que quisesse chegar primeiro. Queria chegar por meu mérito, vontade, desejo. Pensamos sempre ter a orientação necessária antes de se foder tudo. O que não pensamos é que, caso nos percamos, não há ninguém para nos indicar o caminho. Para qualquer lado que olhe só vejo pessoas vazias, cheias de preocupações mundanas que a mim não dizem nada. E anseio por ser uma delas. Dentro da rota. Só ser mais uma delas. Não ter que pensar – ou massacrar-me.

Ainda aqui estou. No caminho. Já não sei se caminho para o lado correcto. Mas continuo a andar. Hei-de chegar a qualquer lado.

O que mais me aflige na solidão é a consciência de que nunca estou plenamente sozinha – estou comigo. Pratico uma total alienação de mim. Recuso olhar-me ao espelho com medo de ganhar a percepção que os outros têm de mim. Recuso auto analisar-me por receio de perceber que os meus piores pensamentos são realidade. Na verdade, é muito mais fácil dizer que sou a pior merda deste mundo sem a noção de realmente o ser. Deixo que os outros decidam, porque eu não me posso dar ao luxo de descobrir. Ou sequer considerar. Digo, a priori, que sou um ser humano terrível: se for ninguém pode dizer que não avisei; se não tanto melhor.

Não penso em mim como pessoa. Ou não penso em mim de todo. Vivo em função dos outros. (Quem quer que eles sejam.) Não faço escolhas para não errar na opção. Sou uma escrava do meu cérebro, uma puta reles que se vende a qualquer negro pensamento. Pensar é sofrer, doer, morrer. Um dia destes faço um buraco no cérebro para que, entre o sangue, escorra também o negro. E aí, serei feliz.

Tira essa merda daqui

Chega-me os anti-depressivos.

E não me demovas. Aceito qualquer efeito secundário se em troca cessar o dilúvio na minha cara. Uma hora sem emoções ou culpas. Que se lixe o factor viciante, como se a incapacidade de lidar comigo própria não fosse já vício suficiente. Que se foda a vossa compaixão, não a quero para nada. Quero químicos com efeitos imediatos. Quero não me culpabilizar pelos pecados do mundo quando só cometi os meus. Quero não sentir, amen.

Chega-me os anti-depressivos.

Deixa que eles me roubem a atenção, a percepção, a sensação! Deixa que a apatia me envenene o sangue, a pele, o corpo. Deixa que seja devota do marasmo. Fico bem desde que não sinta. Sentir é uma morte dolorosamente lenta. Chega-me os anti-depressivos e já estou bem. Ou não. Mas com eles não importa, porque só me importa nada.

Introduza o título aqui

É mais fácil chorar à noite. O silêncio somente desfeito pelo som dos bichos. A lembrar-nos que estamos sozinhos até ao fim dos tempos, pelo menos do nosso tempo. O cigarro e o copo cheio passam a ser companhia constante. É mais fácil falar com eles. Não julgam. Acendem a réstia de confiança ou coragem que nos impele a cometer aquele crasso erro que nunca nos permitiremos esquecer ou a doce consequência que havemos eternamente de consagrar .

A noite, desgostosa, obriga-nos a olhar dentro de nós. Avalia-se o tipo de pessoa em que nos tornámos, aumenta-se a dimensão dos pecados e inicia-se o luto pelo projecto de boa pessoa em que algum longínquo dia fomos. Pensar que somos más pessoas é relativamente fácil; ainda mais se formos a pessoa que mais nos odeia.

É mais fácil chorar à noite. Sob mil estrelas. E a luz da lua, a iluminar apenas o suficiente. Uma cara lavada em lágrimas com a luz da lua é das coisas mais bonitas. É poético. A arte do sofrimento não é para todos.

É mais fácil chorar à noite.

Nota

Encarcerei-me em mim própria. Para ninguém me ver. Ou usar. Ou julgar. De que servem os relacionamentos senão para criar um cofre forte de desilusões, traumas e ódios por todas as pessoas? Tenho cancro social. Na última fase. Cada átomo do meu corpo está infectado com esta doença sem cura.

As pessoas são podres, são raras as excepções. A bondade para com o próximo é uma fachada construída pela sociedade, porque é errado demonstrarmos o monstro que somos em praça pública. E, ninguém tem um lado bom a menos que isso lhe traga alguma vantagem. O ilusionismo do altruísmo. As aparências importam muito mais que a verdade.

Dás um pouco de ti aos teus próximos, pensas estar a construir um círculo inquebrável de amor e pessoas indispensáveis à tua sobrevivência. Quando dás por ti esse círculo encontra-se bastante reduzido. Porque ninguém quer estar perto de outro alguém fodido; ninguém quer essa responsabilidade, ninguém sabe ou sequer tenta aprender como lidar contigo. Então, desse círculo, ficas com um número bastante limitado de pessoas que gostam de ti ou pelo menos ainda te suportam. Mas tu não lhes facilitas a vida. E sentes-te desamparada e solitária e ignorada. Não controlas os teus impulsos e descarregas todas as tuas frustrações e nervosismos nas únicas pessoas que ainda te suportam. Nem pensas na injustiça que estás a cometer com eles, ficas presa num loop infinito de más recordações anteriores.

E isto, meus caros, é jogar à roleta russa sozinha. Podes adiar, mas o inevitável não tarda a aparecer.