Os velhos andam aos pares. Andam aos pares até à porta do café, onde se multiplicam. Multiplicam—se também as queixas, as dores e os copos. É quando ficam singulares que a humanidade tem pena deles. Porque estão sozinhos a suportar as dores, ao invés de terem outro velho corpo ao lado, a definhar como eles próprios. Cada dia, nova doença. Cada dia, menos vida.

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Quase 26 anos e tudo o que tenho é a mim. Que, sejamos francos, não é grande coisa. Todos os dias travo guerras interiores. Não ganho nem perco. Quando lutamos contra nós não há realmente uma forma de ganhar. Já me massacrei das mais variadas formas — menos física. A minha cena é o psicológico. Sou mestre nessa merda, aniquilar—me mentalmente. Já sabotei os meus maiores salvadores, e tudo isto sem eu própria perceber. Eu podia ser o maior génio do mal que este mundo já viu, não fosse eu ser tão distraída.

Quanto aos meus feitos, posso dizer que é grande coisa não ter tido grande maleita até este momento. Tendo em conta a minha dieta diária, à base de café e cigarros, a minha não actividade física e desrespeito por recomendações dos altos profissionais da nossa medicina diria que estou como nova.

É só por dentro que estou pronta a morrer. Este campo é seco e infértil. Inacessível a outros seres humanos. Tudo o que aqui permanece acaba por arder. E eu obrigada a assistir a esse processo todo. Como se fosse nada.

Há cinco (?) anos que o meu dia não acaba. Procurei um pouco de paz para este cérebro sem navegação mas ela escorreu-me pelos dedos tão depressa que nem me apercebi. Não sou merecedora de paz. Estou condenada a passar o resto dos meus dias – que rogo que não sejam muitos – a escrutinar todas as minhas más acções. Uma e outra vez. Fui eu que cavei a sepultura. Fui eu que me deitei no buraco. E fui eu quem pediu que o tapassem e me deixassem só.

Enalteci-me tanto por fazer tudo sozinha. E sou eu, agora, quem anseia por uma ajuda que não virá. Faço o meu pré-luto sozinha, talvez não haja ninguém para o fazer depois.

Vou queimar esta pele com o meu próprio veneno. Deixar que toda ela se vá e criar outra nova. Deixo os ossos, frágeis, para me relembrar dos tombos, dos danos e da escória do mundo. Ainda sinto medo. Pouco, porque já estraguei todas as questões relevantes que o transportam.

Transformar estas mãos em algo que cria ao invés de serem apenas um utensílio para carregar todos os cigarros (entenda-se recordações) que queimo.

Duvido de mim mais do que de deus. Sei que, ainda assim, ele é real para algumas pessoas. Ao contrário de mim. Mas ascender do inferno tornou-se vital. Não há barreiras quando não há expectativas. E já ninguém, a não ser eu, as tem sobre mim. E assim me ergo dos mortos. Espero.

Queria mais. Mas não me acho capaz de porque.

Tudo o que sei é que o peso no peito é cada vez mais insuportável e eu já não me lembro de como tirar isto de mim. A alienação é cada vez mais patente. Não sei falar ou escrever ou exprimir-me. Acho que isso faz com que eu seja menos humana. Não sei definir-me porque não tenho auto-estima e por isso não sei quem sou. Tentei reviver as memórias para me encontrar, fodi-me; fodi-me porque, do que me lembro, já nada é real. E se nunca foi? Queria muito lembrar-me da definição de felicidade. Não da que vem no dicionário mas da que, sei que, já senti. Mas só, e sempre, frio e alheamento.

Conheci o abandono da humanidade através dos olhos chorosos da minha bisavó. Na voz, tremida, a percepção de quem dá trabalho aos outros sem nada ter para dar em troca. A fragilidade incapacitante dos ossos e da pele. E do cérebro. O mau estar de quem mal está.

Choras com pouco, eu choro contigo.

Tenho braços a prenderem-me os movimentos. Quero ir-me embora. De mim. Os dias de sol escondem o nevoeiro em mim. Já não choro. Obrigada xanax. Se ao menos houvesse um comprimido que resolvesse tudo… Tenho braços dentro de mim que me puxam e mantém no inferno.

As pessoas dizem que tenho um tom de voz baixo, agora. Desculpem. Culpa vossa. Desculpem. Já não falo com certezas e sem medos. E a cada duas palavras… Desculpem. É mais fácil pedir perdão do que tentar explicar o que há em mim. Desculpem.

Pudesse eu arrancar pedaços de mim. Fazer o luto por esses podres pedaços e voltar a nascer. Ter só branco na minha vida. Apagar da memória o negro. Ser de novo inteira. Não ter medo. Medo de ser. Medo de perder. Medo de viver.

Quem me seca as lágrimas que não têm fim? Quem está aí? Alguém? Ninguém. A apatia vem a caminho. De boleia com os calmantes. Perdi a memória do que é sentir algo bom. O meu corpo é frio como a morte. Disseram-me que o inferno é quente. É mentira.

Alimento a solidão com calmantes esperando não padecer, novamente, com a ansiedade. Desejo a apatia. Hoje. Amanhã não sei. Sinto o desprendimento das pessoas para comigo. É cansativo ser um mendigo de afectos. A apatia assusta mais, mas fere menos. Anseio pelo dia em que alguém me liberte deste cérebro. Ou apenas me abrace e perceba que eu sou real.